Na política de Lages, ela reinaria, quase que absoluta, ao longo de várias décadas, desde os últimos anos do Império até os três primeiros anos da década de 1970. Também exerceria poder no governo estadual, com seis membros da família governadores. O mais ilustre político deste clã foi Nereu Ramos, tendo chegado à Presidência da República.

 

   O poder político da família Ramos vem desde a época do Império Português, quando se destacava como chefe político lageano Vidal José de Oliveira Ramos Sênior. Depois, com a proclamação da República, despontaria no cenário do governo municipal Vidal José de Oliveira Ramos Júnior, nomeado superintendente de Lages entre os anos 1895-1902. Vidal Júnior seria sucedido no governo do município pelo irmão Belizário José de Oliveira Ramos (1902-1922).

   No decorrer dos 20 anos de governo municipal, Belizário Ramos por mais de uma vez, licenciou-se do cargo e em uma dessas ocasiões designou para substituí-lo o genro, Otacílio Vieira da Costa. O filho de Belizário, Aristiliano Laureano Ramos, também ocupou o cargo do pai, interinamente.  

   Depois destes iniciais 27 anos de poder político municipal republicano, outros quatro representantes da Família Ramos exerceriam o cargo de prefeito de Lages: Henrique Ramos Júnior (1932-1937); Vidal Ramos Júnior, o Vidalzinho, em três mandatos (1941-1945; 1946-1951; 1956-1961); Áureo Vidal Ramos (1969-1973); Jairo Ramos, este interinamente (de abril a dezembro de 1947).

   Já em nível de poder estadual e projeção política nacional, tudo começa com a guinada de Vidal José de Oliveira Ramos Júnior de vice-governador para governador de Santa Catarina, no período de novembro de 1902 a outubro de 1905, em decorrência da renúncia de Felipe Schmidt para exercer o cargo de ministro da Viação.

   Vidal governaria o Estado em mais um período, de 1910 a 1914, e depois dele mais cinco membros da família governariam o Estado de Santa Catarina, em distintos períodos: Cândido de Oliveira Ramos (1932-1933); Aristiliano Laureano Ramos (1933-1935); Nereu Ramos (1935-1945); Aderbal Ramos da Silva (1947-1951) e por fim Celso Ramos (1961-1966). Destes cinco Ramos governadores, apenas Aderbal não era lageano. Ele era natural de Florianópolis.

   Contando o tempo em que os Ramos exerceram o cargo de governador do Estado aos dois mandados do também lageano de nascimento Felipe Schmidt, os lageanos teriam ficado à frente do governo catarinense por 40 anos (intercalados).

 

   Projeção Nacional dos Ramos

 

   Com a eclosão da Revolução de 1930 e o Estado Novo (regime político que vigorou de novembro de 1937 a janeiro de 1946), o poder político dos Ramos ganharia força. Aristiliano seria nomeado interventor do Estado de 1933 a 1934. Em 1935 Nereu Ramos é empossado governador, tendo sido eleito por uma Constituinte estadual. E em 1937, com o Estado Novo implantado em nível nacional, Nereu é nomeado interventor de Santa Catarina, permanecendo à frente do governo até 1945.

   Nereu Ramos, no entanto, não cai politicamente depois da fatídica morte do Presidente Getúlio Vargas em 1954, ele apenas deixa de ser interventor do Estado e se elege, pelo antigo PSD, deputado federal e senador, simultaneamente. Na época a legislação eleitoral permitia dupla candidatura.

 

  Político Perspicaz

 

   Experiente político, Nereu Ramos é escolhido como presidente da Comissão Constituinte e como líder da maioria no Senado. E uma vez promulgada a Constituição de 1946, é eleito pelo Congresso Nacional Vice-Presidente da República (1946-1951). Com a morte do Presidente Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954, dá-se uma reviravolta política no país, culminando com o movimento “11 de novembro”, liderado pelo Ministro da Guerra, Teixeira Lott, que exigia a posse do então presidente da mesa diretora no Senado Federal, Nereu Ramos, na Presidência da República.

    Isto ocorreria depois que Café Filho, na condição de vice de Vargas teve de deixar o cargo de presidente por problemas de saúde. E também porque o seu substituto na Presidência da República, o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz, foi deposto pelo Ministro da Guerra, Teixeira Lott.

  Desta forma, Nereu de Oliveira Ramos, ocuparia o cargo de Presidente da República do Brasil de 11 de novembro de 1955 a 31 de janeiro de 1956 quando passaria a faixa presidencial para Juscelino Kubitschek, eleito nas eleições de outubro de 1955.

 

 

   A origem Família Ramos

 

   O patriarca da Família Ramos, de Lages, foi Laureano José de Ramos, filho legítimo de Mateus José Coelho e de Maria Antônia de Jesus, ambos naturais do Arquipélago dos Açores (Ilha Terceira). Nascido num domingo de Ramos (18-3-1777), na Freguesia de São Miguel da Terra Firme (atual Biguaçu-SC), Laureano foi batizado com o sobrenome Ramos. O patronímico enxertado no nome do filho, motivado provavelmente por questão de crença religiosa, também seria adotada pelo pai (Mateus) e repassada aos outros membros da família. A partir daí, surge à família Ramos que, notadamente, marcou a história da política municipal e estadual. 

   Laureano José de Ramos chegara a Lages depois de ter vivido na Vila de São Francisco do Sul (SC), e depois na Vila de Santo Antonio da Lapa (PR), onde casou-se com Maria Gertrudes de Moura. Do Paraná, ele saiu em 1807 com destino a Vila de Santo Antonio da Patrulha (RS). Dali, percorrendo o antigo Caminho das Tropas, e em companhia da esposa e de três filhos pequenos, o exímio carpinteiro e marceneiro, chega à Coxilha Rica cruzando o então “Registro de Santa Vitória”.

   O escritor Celso Ramos Filho, no livro “Coxilha Rica – Genealogia da Família Ramos”, editado pela Insular, revela que Laureano Ramos, “modesto barriga-verde, homem inteligente e trabalhador, conseguiu fundar no histórico município de Lages, o mais importante estabelecimento agropecuário que existiu naquela época e que não teve igual depois”.

    Além da criação de gado, o precursor dos Ramos mantinha na sua primeira propriedade, localizada na história região do “Guarda-Mor” um verdadeiro empreendimento industrial e agropecuário, comporto por atafona, azenha, tecelagem de lã e algodão, olaria, além de carpintaria e um grande pomar.

   A posse legal das terras onde Laureano inicialmente se estabeleceu, na Coxilha Rica, seria requerida na Câmara de Lages (legalização ocorrida em 1819). Depois disso é que a Família teria adquirido a histórica Fazenda Guarda-Mor, situada em área anexa às terras legalizadas. A compra da fazenda Guarda-Mor foi negociada com a viúva de Bento do Amaral Gurgel Annes, o qual teria adquirido a propriedade antes pertencente a Antonio Corrêa Pinto de Macedo. A Guarda-Mor pertenceria aos Ramos até a década de 1970.

 

 

Família de Fazendeiros

 

A Família Ramos foi proprietária de inúmeras fazendas na Coxilha Rica e Vacaria, das quais as mais conhecidas são:

 

Fazenda das Bananeiras Guarda-Mor (Laureano José de Ramos)

 

Fazenda Limoeiro (Mauro Ramos)

 

Fazenda dos Morrinhos (Belizário José de Oliveira Ramos)

 

Fazenda Cabanha Santa Luzia (Accácio Ramos Arruda)

 

Fazenda Capão do Posto (Hemiliano O. Ramos)

 

Fazenda das Canoas (Adolfo, irmão de Laureano Ramos)

 

Fazenda Estrela (Fidelis José Ramos, filho de Laureano)

 

Fazenda Herança (Luiz José de O. Ramos Sênior)

 

Fazenda Monte Cristo (Vidal José de Oliveira Sobrinho)

 

Fazenda Penteado (Henrique Ferreira Ramos)

 

Fazenda Pinheiro Seco (Celso Ramos)

 

Fazenda Rincão dos Touros (João José Ramos)

 

Fazenda São Roque (Belizário Ramos e Licurgo Ramos da Costa)

 

Fazenda Serro (Belizário J. O. Ramos)

 

Por Iran Rosa de Moraes