Natural de Bom Retiro, há 37 anos o radialista Ricardo Córdova escolheu Lages para viver. Consolidou sua carreira no rádio e formou família com Suian Carvalho, com quem teve dois filhos, Daniel e Manuela. Tido muitas vezes como um comunicador polêmico, Ricardo sempre expressou suas opiniões de maneira firme e coesa.

 

Agora o radialista aceita o desafio de assumir a Rádio Mix, mais nova emissora de Lages que entra no ar no dia 23 de dezembro, no lugar da Menina FM, utilizando a mesma frequência 89,9 FM. Ricardo ingressou no rádio em 1986, por intermédio da tia Juana Figueiredo, como operador de rádio (sonoplasta) na Rádio Líder do Vale em Herval D’Oeste. Mesmo sem ser locutor, após ter gravado uma chamada para uma festa, foi convidado pela gerência da rádio Transoeste FM, de Joaçaba, para assumir o horário noturno da emissora.

 

Logo foi descoberto pelo Diretor da Rede Atlântida, Sérgio Sirotsky, que estava de passagem por Joaçaba, o qual disse estar precisando de um locutor em Lages e, a partir daí sua a carreira no rádio decolou. Em 1988 estava de volta a Lages trabalhando, como ele mesmo define, na emissora dos sonhos de 10 entre 10 locutores. Aos 22 anos assumiu a coordenação da emissora, se tornando o mais jovem a ocupar o cargo em toda a rede.

 

Como você se consolidou como radialista em Lages após o encerramento das atividades da Rede Atlântida na cidade?

Quando o Grupo RBS vendeu a concessão para a Rede Fronteira, em 1992, forçando o encerramento das atividades da emissora em Lages, para não sair do meio criei os programas “Santa”, “Café Pinhão Music Spots”, e ‘In Company’ até 1999. Todos levados ao ar pela emissora hoje conhecida como FM 101 – antes denominada como Verdes Campos, 101 FM, Joven Pan e Nova 101 FM – quando, no ano 2000, passei a integrar oficialmente o quadro de colaboradores. Fiquei na 101 FM até 2007 e neste mesmo ano fui convidado pela Band FM para apresentar um programa pop no final de tarde da emissora sertaneja. Na Band, onde fiquei até 2018, criei o Copa & Cozinha e o Papo de Copa, programas que trouxe para Menina.

 

Sobre a nova emissora, qual a proposta da Rádio Mix para Lages? Trará uma programação local?

A Rádio Mix é uma das maiores redes de rádio do Brasil e atua no segmento musical pop. Essa era uma lacuna existente no mercado radiofônico em Lages. A maioria das emissoras atua com programação musical tendo o sertanejo como base. Isso faz com que a fatia de mercado que gosta deste estilo de música tenha várias opções. No entanto, a fidelidade à uma emissora praticamente inexiste. O ouvinte fica trocando de rádio o tempo inteiro. Isso até pode ser normal, mas o anunciante acaba não tendo um resultado expressivo, porque toda vez que entra o break o ouvinte procura outra estação. Isso não acontece quando o programa que está no ar é um gerador de conteúdo. Neste caso o ouvinte espera (e ouve) todo o break para não perder a continuação. A geração de conteúdo foi uma das principais bandeiras do reposicionamento da Rádio Menina em Lages e continuará sendo com a Mix. Estaremos operando das 07h00 às 19h00 com comunicação local. Destas, quatro horas serão de puro conteúdo local, sem músicas.

 

Como você encara esse novo desafio?

É o maior da minha vida profissional. Todo radialista sonha em ter sua própria rádio. Estou realizando esse sonho aos 51 anos de idade e quase 34 anos depois do primeiro emprego no ramo. Tenho consciência do trabalho que já fiz e do que tenho pela frente. Já comandei equipes na Atlântida, 101 FM e na Menina. No entanto, nenhum deles com a responsabilidade de empregador.

 

O que a Rádio Mix trará de novo aos ouvintes?

Escolhemos a Mix pela identidade com a proposta de reposicionamento que implantamos na Rádio Menina nos últimos 14 meses. Gerar conteúdo de qualidade, as melhores promoções do rádio brasileiro, qualidade na plástica (vinhetas e trilhas produzidas em Los Angeles), uma programação musical espetacular que reúne o melhor do POP, ou seja, totalmente diferente do que o rádio em Lages oferece hoje. O público alvo da Mix não tem uma emissora como essa hoje na cidade e região.

 

Em relação à programação, como será trabalhado esse choque de gêneros musicais, tendo em vista que a Rádio Mix é uma rádio POP?

O POP é uma abreviação para popular que, por definição, é um gênero que reúne todos os estilos musicais diferentes da música clássica. Logo, o slogan da MIX define bem a proposta da emissora, sendo “um Mix de tudo o que você gosta". Mas é importante destacar que não se trata de uma “salada” de gêneros musicais jogados no ar aleatoriamente. Há todo um cuidado na seleção musical e na ordem em que as músicas são executadas. A rede é rígida nesse aspecto considerando que investiu muito em pesquisas de mercado e comportamento do consumidor.

 

Sobre o conteúdo local, a grade permanecerá a mesma da atual Menina FM ou haverá restruturação no conteúdo?

Pesou muito na nossa escolha pela Mix a compreensão da rede em nos deixar continuar executando nossos principais e mais rentáveis produtos nos formatos e horários atuais. Nosso carro-chefe continua sendo o Copa & Cozinha às 18h. Nosso jornal no início do dia, às 07h, também permanecerá no mesmo formato. O Papo de Copa, outro case de sucesso, terá duas edições diárias de 30 minutos, ao invés de uma hora inteira a partir das 12h. O esporte em geral – principalmente o futebol – tem grande apelo popular e continuaremos tratando do assunto com a tradicional leveza profissional. Nossos convidados se divertem na bancada e representam exatamente o que o ouvinte pensa, criando uma identidade fantástica. Além dos programas tradicionais, novidades na geração de conteúdo ao longo do dia transformarão a maneira de entregar o mix de música e informação.

 

Como avalia o atual cenário da radiodifusão, tendo em vista as mais variadas plataformas digitais que disponibilizam conteúdo de entretenimento?

No início, em 2010, confesso que fiquei receoso. Hoje entendo como uma maneira a mais de difundir nossos produtos e serviços. Essas plataformas nos permitiram transmitir nosso conteúdo para o mundo inteiro. Antes ficávamos limitados à nossa área de abrangência.

 

Essas mudanças contínuas de emissoras que continuam usando a mesma frequência (89.9) contribuem ou atrapalham na fidelização dos ouvintes?

Acredito na evolução dos produtos e trabalho pra que isso seja contínuo. O que está acontecendo nos 89,9MHz é uma busca constante pelo espaço nunca alcançado. Estamos começando. Não temos nada a perder. Não estávamos nem o térreo, estávamos no subsolo. Esses 14 meses que fiquei como gestor do Grupo Narbal Souza em Lages serviram para fazer a base para esse projeto maior. Cuidamos de cada passo desde o 01/11/18 até a decisão de arrendar a emissora e implantar o projeto ideal. Não conseguimos fazer isso antes por conta do engessamento proporcionado pela distância com a sede da empresa. São realidades diferentes. Quanto à fidelidade, isso é uma realidade inexistente no rádio e na tv nos dias de hoje. As pessoas têm gostos diferentes e o rádio tem que buscar entender o que está acontecendo com a TV para se modernizar. Não é tarefa fácil encontrar uma pessoa que goste de novela e de futebol. As pesquisas mostram que o público feminino prefere o primeiro e o masculino o segundo. Mesmo assim, no mesmo dia, no mesmo canal, com 30 segundos de diferença termina um e começa o outro e há uma troca gigantesca dos espectadores naquele exato momento. O que quero dizer é que as pessoas também estão se habituando a buscar no rádio os conteúdos que lhes interessa dependendo do momento. Foi-se o tempo que não se tinha escolha. Se destacará quem conseguir gerar a maior quantidade de conteúdo com qualidade.

 

Atualmente ouve-se muito a frase de que os veículos de comunicação tradicionais (Rádio, TV e jornais) precisam se reinventar para manter seu espaço diante às mídias novas. O que tem sido feito para que isso aconteça e principalmente manter a credibilidade no rádio?

Estamos vivendo a era das fake news. Por isso é importante estarmos atentos ao que o mercado consumidor pensa de cada veículo frente a essa realidade. As pesquisas recentes – fontes como Book do Rádio/ Kantar IBOPE e PNAD/IBGE – comprovam que o rádio é o veículo com a maior credibilidade quando comparado aos demais. Nosso trabalho deve ser manter esse fato.

 

A Rádio Mix é mais uma nova e grande emissora que aposta em Lages. Em sua opinião, o que atrai os olhares das emissoras para nossa cidade?

 

Acredito que essa atmosfera de mudança e progresso que estamos sentindo, mesmo que alguns veículos de comunicação tentem induzir ao contrário, faz com todos os segmentos se voltem à necessidade de investimento e ampliação. De minha parte fico feliz que as grandes redes pensem além dos umbigos (na opinião deles) São Paulo e Rio de Janeiro.

 

Falando um pouco sobre a cidade, como você vê a atual estrutura de Lages quanto às políticas públicas para o desenvolvimento do município?

A evolução deve ser constante. Precisamos nos libertar de algumas correntes. Há bons exemplos de políticas públicas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Há de se ter boa vontade. Se não há dinheiro para viagens em busca das inovações, a internet está aí para viabilizar pesquisas simples que podem resultar em bons projetos.

 

O que precisa ser feito para que o potencial econômico de Lages seja despertado?

Além de boa vontade política em viabilizar projetos e investimentos, precisamos parar de pensar que algo não é bom só porque o “dono” da ideia não sou eu. Os números dos últimos dois anos mostram que a atração de grandes indústrias e empresas para uma determinada região é a principal responsável pela alavancada na economia. Isso sem considerar que somos o centro de uma região com enorme potencial turístico. Não precisamos ter inveja das belezas naturais de Urubici ou do frio de São Joaquim. Precisamos é saber receber e cativar quem passa por aqui querendo conhecer e aproveitar a região.

 

Enquanto grandes empresas apostam na nossa cidade, muitas vezes os próprios lageanos não veem esse valor. Você concorda com isso? Por quê?

 

Não concordo! Essa é uma maneira de pensar e se expressar de uma minoria que ganha força pela cultura da desgraça promovida pela adesão de alguns veículos de comunicação dependentes do dinheiro público. A cultura do negativismo existe, é verdade, e a culpa passa diretamente por administrações públicas que, ao longo do tempo, pagavam para que não fossem criticadas. Aqui na rádio damos publicidade às ações promovidas e patrocinadas pelo poder público. Contudo, quem nos move é o comércio e é para esses empresários que temos que moldar nossas ações de conteúdo. Não acredito que alguém queira atrelar sua marca, produto ou serviço a um veículo de comunicação que só fala mal da cidade.

Fotos  _  Gugu Garcia