A história é contada há mais de dois mil anos, mas a emoção de reviver o sofrimento e ressurreição de Cristo se renova todos os anos. Nesta Sexta Feira Santa (19 de abril) não foi diferente. Milhares de fiéis tradicionalmente subiram as Escadarias Frei Silvério, até o alto do Morro da Cruz, muitos passando pela Via Sacra em ato de peregrinação, e se emocionaram com a encenação da paixão e morte de Jesus Cristo. Promovido pela Prefeitura de Lages e realizado pelo Movimento do Tabor, com diversos apoiadores, a programação é considerada um dos maiores eventos religiosos do Sul do país.

São cerca de 45 celebrações ao longo de sete dias, incluindo as oito paróquias da Diocese, iniciando no Domingo de Ramos (14 de abril) e encerrando no Domingo de Páscoa (21 de abril), com quatro encenações no alto do Morro. Segundo os organizadores, a estimativa é de que um público de aproximadamente 150 mil pessoas acompanhe toda programação. Somente no complexo religioso do Morro da Cruz, onde também está localizada a capela, calcula-se que em torno de 80 mil pessoas, inclusive turistas dos três Estados do Sul, circulem pelo local nesta Sexta Feira, com doze horas de ritos religiosos, romarias e encenações, iniciando às 6h.

O prefeito Antonio Ceron, acompanhado da filha Mayra, subiu a escadaria exatamente às 9h e acompanhou a encenação. “Este é o evento religioso que mais reúne as pessoas em Lages, atraindo devotos de outros lugares também, então eu desejo do fundo do meu coração que seja uma semana voltada à reflexão sobre o quanto é importante fazermos o bem uns aos outros”, comenta.

O prefeito ainda anunciou que, a partir de maio a prefeitura iniciará a revitalização da Via Sacra, para que outros eventos religiosos possam ser realizados ao longo do ano no local. O Bispo Dom Guilherme Werlang agradeceu a iniciativa e convidou toda a comunidade a participar da primeira celebração, uma parceria entre as oito paróquias de Lages. Será no dia 19 de maio, às 15h, a Via Sacra com Nossa Senhora das Dores, seguida por uma missa celebrada no alto do Morro. “Uma vez por mês faremos esta celebração, sendo de responsabilidade de uma paróquia cada vez”, afirma. Com relação à encenação que emociona milhares de fiéis, Dom Guilherme comenta que a cidade de Lages, que cresceu ao pé do Morro da Cruz, faz lembrar os montes de Jerusalém. “Estas cenas remetem muito a realidade daquela época, realmente muito emocionante”.

História contada em quatro atos

O grande desafio para o grupo do Movimento do Tabor, que reconta a história de Jesus através das encenações, é emocionar os fiéis trazendo os fatos com maior realidade possível em forma de celebração. “O que fazemos não é uma peça de teatro. As pessoas veem para celebrar a paixão e morte de Jesus, e ouvir o Evangélio contado de forma lúdica, através das cenas e da música”, enfatiza Helio Furlan, coordenador do Movimento do Tabor.

A história é dividida em quatro atos, com o Tríduo Pascoal do começo ao fim, contando como foi a morte de Jesus Cristo e depois o momento da ressurreição. “Não faria sentido encerrar nossas celebrações na sua morte. O grande significado para os cristãos é da morte para a vida, depois do seu sofrimento para nos salvar. Por isso o grande e mais importante ato é a ressurreição”, afirma Helio.

Tanto os atores quanto os músicos que entram em cena são todos jovens amadores, que atuam de forma voluntária no Movimento do Tabor e se dedicam durante incansáveis quatro meses, tempo de preparação para as encenações. O trabalho é realizado há 19 anos, evoluindo a cada ano e atraindo cada vez mais devotos.

Fiéis cumprem ritual religioso

A fé inabalável de devotos e fiéis é o que motiva a subida da escadaria, com seus 513 degraus e uma inclinação íngreme. Nem mesmo aqueles com mais idade desistem de cumprir seu ritual da Sexta Feira da Paixão. O senhor Antonio Abreu, no auge dos seus 83 anos, subiu os degraus, um a um, sem descansar. Mesmo com o alerta da família e os remédios para pressão alta que o acompanham todos os dias, nada o fez deixar de seguir pelo caminho sagrado da via sacra. “Tomei meu remédio logo cedinho e pedi para nosso senhor me dar forças para cumprir meu objetivo, e aqui estou muito feliz. Se Deus quiser ano que vem nos encontraremos aqui de novo”, disse com um sorriso no rosto.

Ele estava acompanhado de outro senhor de mesmo nome, Antonio Alberto Amarante, 70 anos, amigo de longa data, que também não deixa de subir o Morro um ano sequer. “Faz 23 anos que venho, sem interrupção. Acompanhei desde o início das celebrações, e hoje em dia está muito mais emocionante com a encenação”, lembra.

As amigas Letícia Carolina Silva e Ana Paula Santos, ambas moradoras do bairro Várzea, esperavam ansiosas pelo momento da encenação. “Minha família sempre segue os rituais, desde catar marcela logo cedo, e participar das missas da Sexta Feira Santa. Subimos o Morro todo ano também, o cansaço vale a pena, porque depois sentimos uma sensação de paz muito boa”, comenta Letícia.

Texto: Aline Tives - Fotos: Nilton Wolff, Fom Conrad, Greik Pacheco e Ary Barbosa