O jornalismo precisa de novas aspirações

Daniel Romão*

            Termino a pesquisa sobre a abordagem de dois veículos cubanos, um de oposição (cibercuba.com) e um de situação (Granma), durante a última eleição em Cuba, com a certeza de que o jornalismo precisa se reinventar tanto na forma estética, quanto na comercial; para assim, descobrir novas possibilidades de narrativa e neutralidade, inclusive para conquistar amplos públicos, como os nativos digitais, consumidores vorazes das redes sociais, mas que necessitam cada vez de mais profundidade nas informações. Assim como do ponto de vista comercial, é importante o jornalismo aprender a se capitalizar em um mundo onde os cliques valem mais do que jornais e revistas comprados em bancas – inclusive, para a própria sobrevivência da profissão jornalista como a conhecemos.

            Interessante notar que dois fatores do século passado foram importantes para o desenvolvimento da imprensa: a liberdade de expressão e impressão ou o abrandamento da censura e o as inovações tecnológicas. Da mesma forma, é importante ressaltar que este florescer de diferentes veículos de comunicação sucumbiu à concentração da propriedade da comunicação; que se por um lado propiciou o surgimento de conglomerados com qualidade impar na história do jornalismo, por outro impossibilitou a existência de inúmeros pequenos negócios de comunicação, que em qualquer sociedade são importantes para publicitar pela sociedade a multiplicidade de ideias e versões.

            Logo, só pode existir verdadeiro jornalismo com a democracia e só pode haver democracia com a liberdade de imprensa e expressão. Cuba atual, que se abre ao novo, parece aos poucos conviver com um jornalismo crítico, mas que só pode ser crítico ao ponto de não criticar a Revolução Socialista de 1959. Da mesma forma, de ambos os lados, o jornalismo é utilizado não apenas como meio para divulgação e obtenção de informações e opiniões, mas como um fim em si mesmo na forma de propagar conscientização, ideário e ser uma arma política. Inclusive, mais importante que a veracidade é a forma que a notícia em Cuba possa ser utilizada para arranhar adversários políticos, sejam eles o Estado Socialista ou grupos contrários ao regime.

            É necessário ressaltar que a base da comunicação de Cuba é estatal, o que por si só não é um fator que dá parcialidade ao jornalismo; porém, o fato de em Cuba tudo ser atrelado e apaixonado à política, desde os vendedores de jornais até os principais jornalistas do país, seja apoiador ou contrário ao Socialismo, é o que gera a parcialidade, partidarismo e disputa política da opinião pública no jornalismo cubano, influência direta de José Marti, líder da Independência Cubana e também jornalista, precursor do modelo jornalístico de Cuba, que legou aos veículos de comunicação a tarefa de organização social, instrumento de educação e de formação de consciência crítica da sociedade. Porém, o jornalismo cubano pode também ser um exemplo de como fazer um jornalismo dedicado à sociedade na forma de utilidade pública sem sofrer imposições da publicidade e do mercado.

            Da mesma forma que o Brasil é inundado por fake news que passam de celular em celular sem muito questionamento crítico do emissor e do receptor, é necessário olhar para a prática jornalística praticada no país para entender o que veículos e jornalistas podem fazer para mudar o atual panorama da comunicação brasileira. Por parte dos veículos e empresários da comunicação é importante valorizar os profissionais, com melhores salários e a eliminação da sobrecarga existente dentro de redações; e por parte dos jornalistas, é necessário continuar o exemplo à sociedade de como apurar a veracidade e também lutar pela obrigatoriedade do diploma na profissão. Assim, como a própria sociedade deve entender que o jornalismo é um dos pilares da cidadania e democracia, além de clamar por uma educação crítica, situada no século XXI.

*Daniel Romão é jornalista