Por Loreno Siega

O Governo do PT, no Brasil, está muito longe do ideal socialista possível. Trocando em miúdos, isso significa que nestes pouco mais de 13 anos em que o partido está no poder central, em Brasília, não governou só para os pobres e oprimidos, conforme rezavam suas cartilhas lá atrás (em 1989, por exemplo, quando Lula perdeu por pouco para Fernando Collor de Melo).

Ao contrário, para os petistas mais apaixonados e aguerridos, o partido fez nestes anos todos muitas e importantes concessões à classe dominante. Os banqueiros, por exemplo, não têm nada do que reclamar do Governo do PT (nem no passado e principalmente hoje). Os grupos que dominam e monopolizam os grandes meios de comunicação social e de massa, idem. Exemplo maior é a Globo, que Lula e o PT jamais ousaram “peitar”.

Classe média não tinha do que reclamar

Até um certo tempo, final de 2013, a classe média e média alta também não tinham do que se queixar. Afinal, não faltavam clientes (leia-se) povo com dinheiro para comprar (carros novos, eletrodomésticos, telefones celulares, eletroeletrônicos, roupas, calçados, itens de consumo em geral). Afinal, com a economia funcionando razoavelmente bem (tivemos PIB negativo apenas em um dos 13 anos que o PT está no poder até agora – no ano passado – em 2015), a inflação sob controle (nunca passou de 6,5%, com exceção de 2015), e as taxas de câmbio favoráveis, dava para viajar muito para o exterior (e postar um monte de fotos no facebook dessas viagens, o que fazia o “astral” dessa gente estar sempre em alta).

Então, a classe dominante, por longo tempo, não tinha maiores queixas do PT. E deixaram o Lula e a Dilma governar. Afinal, se os pobres estavam sendo incluídos no mundo do consumo e da renda (dizem os números que foram mais de 40 milhões de brasileiros incluídos no seleto grupo do consumo com programas variados de transferência de renda como Bolsa Família, Pronatec, etc), eles – os mais ricos - também não podiam reclamar.

Lula abria portas dentro e fora do Brasil

Afinal, o Brasil era a “bola da vez”. E Lula, nosso maior líder, era conclamado como “o cara” pela maior autoridade política mundial, Barak Obama, o Presidente dos Estados Unidos da América. Em suas várias viagens pelo mundo afora (a bordo do “Aerolula”, que tantas críticas levou da oposição ao ser adquirido pela Presidência da República), Lula e seus ministros levavam a tiracolo os maiores empresários do País, abriam mercados, fechavam negócios, faziam parcerias econômicas, culturais, bilaterais ou multilaterais. E todos gostavam e aplaudiam.

Se ficou no poder durante 8 anos – e se elegeu e reelegeu sua sucessora – Dilma Roussef – totalizando mais 8 anos - há de se admitir (embora os afixionados da Direita neguem) que o PT – e Lula – seu maior líder – implementaram avanços positivos para o Brasil e para a maioria dos brasileiros. E que sua liderança política – no poder ou fora dele – é inquestionável.

Avanços inegáveis para o Brasil e os brasileiros

Vamos citar alguns apenas alguns desses avanços (para o leitor não cansar tanto): 18 novas Universidades Federais (FHC não criou nenhuma), dobraram-se as vagas nas Universidades Federais que já existiam; criou-se o Prouni, o FIES, o Brasil sem Fronteiras (estudantes brasileiros – aos milhares – estão estudando no exterior sem pagar um tostão); criaram-se centenas de novas escolas técnicas federais pelo Brasil afora; geraram-se milhões de novos empregos com carteira assinada na indústria, no comércio e nos serviços (até o final de 2014, pelo menos); venderam-se automóveis como nunca; o brasileiro nunca andou tanto de avião; criou-se o Minha Casa, Minha Vida (com mais de 3 milhões de famílias ganhando moradias novas, aquilo que nem em sonho imaginavam); criou-se o programa Mais Médicos (que embora criticado e achincalhado pelos médicos brasileiros e suas entidades de classe, de fato levou atendimento a lugares que estavam completamente no abandono); o Brasil pagou toda sua dívida externa (e até emprestou dinheiro ao famigerado FMI); a produção agrícola e pecuária simplesmente dobrou neste período (com crédito a “rodo” para grandes e pequenos – a juros extremamente baixos); o salário mínimo triplicou (em alguns momentos) e no mínimo duplicou em dólar (no final do Governo FHC, em 2002, um Salário Mínimo não valia sequer US$ 100. Hoje está mais de US$ 200, mesmo com o dólar lá nas alturas), a renda média do brasileiro aumentou.... e por aí afora.

O Governo ganhou crédito para continuar....

Esses avanços – é inegável – foram o grande capital político que o PT teve até reeleger Dilma Rousseff, em 2014. E é o que ainda sustenta, no fio da navalha, um governo que neste momento está frágil, capenga e perdido, principalmente porque a economia, depois de muitos anos no positivo, agora degringolou, caiu, foi para o vermelho....(há quem diga que a culpa é exclusivamente do Governo – que fez demais e não conseguiu segurar as contas).

Neste momento, o Governo está aos frangalhos, principalmente por um segundo motivo muito forte, que teima em não sair dos noticiários (sabe-se exatamente o porquê), os vários esquemas de corrupção, que finalmente, depois de décadas, foram aos poucos (e até pelas contradições da política) sendo “destrincheirados”, esclarecidos, mostrados e tornados transparentes.

Mensalão

O famoso “Mensalão” – que foi denunciado pelos adversários do PT lá atrás – fez seus estragos. Mas, sabe-se agora, não foi uma criação genuína do PT. Tanto que pegou políticos de vários partidos (inclusive alguns das oposições). E no que consistia? Fazer “agrados” aos deputados e senadores aliados (para que votassem a favor do Governo no Congresso), com dinheiro vindo da corrupção ou das doações das grandes empreiteiras (que “ganhavam” licitações de grandes obras e doavam um pequeno percentual para quem estava no poder). Modus Operandi do PT? Será? Acredite quem quiser. Mas essa prática vem de muito mais longe (os fatos estão provando).

Petrolão

E agora, há questão de 2 anos, os escândalos da Petrobrás (o famoso “Petrolão”), que estão fazendo ainda mais estragos. Mas que também, aos poucos, e graças à autonomia dada aos órgãos de investigação e repressão como a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (e às contradições da política), estão sendo “clareados” para a opinião pública. As grandes empreiteiras, de forma cartelizada, superfaturavam as obras da Petrobrás (e todas as grandes obras públicas – como se isso fosse novidade na política nacional!!!!). E quem ganhasse as licitações, repassava alguns serviços para as demais empreiteiras do “esquema”, sempre pagando uma “comissão” para quem estava nos postos chave da Estatal (ou do Governo) e para quem fazia as nomeações (leia-se políticos – dos partidos governistas).

Nas eleições “jorrava dinheiro” para todos os partidos

Nas eleições, porque nenhuma empreiteira é boba, o dinheiro sujo jorrava forte para todos os partidos. Assim, fosse quem fosse o próximo Presidente ou Governante (funciona da mesma forma nos Governos Estaduais), o esquema continuaria. Assim é. E assim está sendo “desnudado”, dia a dia, pela Operação Lava Jato (principalmente porque alguns “sujos” e “graúdos” – da Petrobrás ou das empreiteiras – incluindo aí muitos políticos – foram e estão sendo “pegos de calças arriadas” graças à famosa “Delação Premiada” (que muitos juristas questionam sua legalidade e eficácia).

Economia no vermelho – o fator determinante

Com a economia do país aos “frangalhos”, com o poder de compra da maioria do povo despencando, com a volta da inflação, com o PIB fechando perigosamente no vermelho     (- 3,8 em 2015), o dólar lá nas alturas, a indústria e o comércio produzindo e vendendo menos – e some-se a isso – com o Governo (hegemonicamente) e toda a classe política com a moral lá embaixo devido aos vários escândalos, o que se pode esperar?

1) Que a maioria do povo brasileiro esteja insatisfeita e queira logo uma solução (ou pelo menos um luz no fim do túnel – o que muitos não conseguem ver – não por culpa deles, claro);

2) Que a oposição esteja mais “ouriçada” do que nunca para dar um golpe e tomar na marra o Governo de quem legitimamente conquistou o poder nas urnas (se está difícil de tomar o Governo do PT de forma democrática, nas urnas, “vamos aproveitar para dar o golpe agora que o Governo está fraco”, raciocinam);

3) Que a maioria do povo – insatisfeitos – invadam as ruas, praças e cidades querendo uma solução o mais rápido possível (o “Fora Dilma” talvez seja o que mais aglutine as pessoas neste momento – como se essa solução mágica fosse estancar de vez todos os problemas a que estamos inseridos neste momento);

4) Que os defensores do Governo – a esta altura do campeonato em cada vez menor número – também se tornem cada vez mais radicais em sua posição (afinal, pensam, “não podemos entregar de bandeja o que conseguimos legitimamente através do voto, a duras penas. E tampouco correr riscos de perder todos os avanços que obtivemos caso o golpe de fato se concretize – o que, admitamos, é uma hipótese). 
Momento de turbulência e muitas incertezas.

Qual nosso futuro? O que fazer?

Esse é o cenário atual. Essa é a mais nítida realidade. Vivemos um momento de muita turbulência (econômica e política, principalmente). Um momento de ódio jamais visto entre os dois grupos (os que apoiam, mesmo que minimamente o Governo – e os que são contra – e querem o poder a todo custo, na marra). 
Nesta luta diária e fratricida (as redes sociais são o sinal mais inequívoco dessa “guerra declarada” entre brasileiros e brasileiras – gente de bem), o que nos espera? O que pode acontecer? Qual nosso futuro?

Oposição não têm líderes à altura

Se os contrários ao Governo tivessem um mínimo de organização e liderança, principalmente essa última – LIDERANÇA - já teriam tomado o poder do PT faz tempo (talvez em 2010 – e com muita certeza agora em 2014, quando o PT venceu por uma diferença muito pequena. Acontece que os partidos de oposição ao Governo, cada vez mais, ESTÃO SEM LIDERANÇAS.

Senão, vejamos:

1) Senador Aécio Neves – do PSDB - Fez mais de 51 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2014 (um grande trunfo, sem dúvida). Quem é ele? Foi deputado federal, governador de MG por dois mandatos. Eleito senador da República (assim que deixou o Governo de MG). Por outro lado, que líder é esse que não venceu as eleições presidenciais no Estado onde governou (MG) nem no 1º e nem no 2º turno? Que líder é esse que não lidera com folga nem o seu partido (o PSDB)? Sabe-se que pelo menos outros dois tucanos estão em guerra aberta pela liderança do partido: Geraldo Alckmin (Governador de SP) e o senador José Serra (ex-governador de SP), ambos derrotados pelo PT em eleições presidenciais, estão “puxando o tapete” de Aécio e brigando pela liderança do partido em nível nacional.

2) Some-se a isso: Aécio não participou até agora de nenhum grande ato ou passeata pública realizada pelas oposições (ao contrário de Lula, que é visto direto enxugando suor e lágrimas em cima de palanques). Aécio foi citado por vários delatores da Lava Jato como beneficiário do esquema da Petrobrás (e até agora não foi investigado, ao contrário do Lula). Aécio Neves fez 124 viagens de avião enquanto governador de MG para a ‘Cidade Maravilhosa”. Ia a passeio, nos finais de semana, com avião pago pelo contribuinte (até agora ele não negou esse fato). Diz-se que ele agrediu fisicamente sua atual esposa (em um evento, no RJ, presenciado por um jornalista – o que deve ser boato). Então, que líder é esse? Você colocaria a mão no fogo por esse líder? Daria seu voto de confiança para ele administrar o Brasil, o seu futuro e o de seus filhos?

3) Marina Silva – do “Solidariedade”, partido que foi criado há pouco tempo e que até agora não disputou eleição nenhuma. A então senadora ambientalista concorreu e perdeu duas vezes nas eleições presidenciais. Em que grupos sociais ou políticos ela confirma sua liderança? Onde ela atualmente circula? Quais as causas que defende? No maior acidente ambiental já visto e acontecido no Brasil até agora – a tragédia de Mariana (MG) – o que a Marina Silva fez a respeito? Então, que líder é essa que nem um partido conhecido tem em suas mãos?

4) Michel Temer – O Vice-Presidente – do PMDB – Que líder é esse que é o atual Vice-Presidente da República (o segundo cargo mais poderoso da “República” e que se queixa para sua chefe, a Presidente Dilma, através de uma “cartinha” dizendo que não tem espaço no Governo (imagina se tivesse – o PMDB tem a Vice-Presidência (ocupada por ele, Michel Temer), o presidente da Câmara, do Senado e mais APENAS 7 dos principais ministérios). Michel Temer – e seu partido – que está sempre no governo – seja de Direita ou de Esquerda – E que conspira sempre no Governo por mais poder – inspiram algum naco de confiança? O povo brasileira vê nele um grande líder?

E os partidos políticos?

Deixemos nomes de lado. Vamos a partidos. Qual o partido no Brasil que neste momento inspira seriedade e confiança ao povo brasileiro? O PT, com certeza, não inspira mais. A grande maioria repudia e quer distância desse partido (pelo menos é o que se diz todos os dias na grande mídia). Na falta do PT “genuíno”, aquele que fazia “a estrela brilhar”, qual o partido no Brasil que inspira seriedade, confiança, honestidade? Qual o partido que tem em seus quadros o menor número de corruptos? Se alguém sabe, por favor, se apresente.

Se não há NOMES DE PESSOAS – POLÍTICOS OU POLÍTICAS – Que sejam verdadeiros líderes – capazes de capitalizar todo ou grande parte do atual descontentamento do povo brasileiro - e que inspirem respeito e um mínimo de confiança – e se não temos partidos que também gerem confiança – Quem vai capitalizar esse IMENSO CAPITAL POLÍTICO E SOCIAL que neste momento está disperso? Afinal, qualquer que seja a solução, terá de passar, necessariamente pela Política (a menos que seja uma ditadura militar). 

Saídas, arrisco uma (com muito medo de errar):

- Qual a saída mais razoável – menos traumática e mais racional se pode querer e esperar neste momento?

- Eu, militante histórico de esquerda, confesso que como a grande maioria – neste momento – estou bastante perdido, decepcionado e cheio de dúvidas. Afinal, o Brasil que eu queria e sonhava, agora, está desmoronando. Mas, de uma coisa tenho certeza: não há nada que esteja ruim que não possa ficar mais ruim do que já está. Na incerteza, na dúvida e na pressa de querer mudar para melhor, talvez a gente acabe “jogando o bebê fora junto com a água do parto”.

Convergência mínima e necessária

Portanto, eu ainda apostaria que todos – líderes de hoje e do futuro – partidos – de situação e de oposição – pudéssemos convergir pelo menos em alguns pontos PELO BEM PRESENTE E FUTURO DO BRASIL.

Alguns pontos dessa CONVERGÊNCIA MÍNIMA NECESSÁRIA:

- Deixar a Presidente Dilma encerrar o seu atual mandato em paz (afinal, ela até agora não cometeu Crime de Responsabilidade – pelo menos pessoalmente – e a oposição – até agora – no segundo mandato – não lhe deu trégua e nem água);

- Fazer um esforço enorme para aprovar imediatamente no Congresso algumas reformas IMPORTANTÍSSIMAS E URGENTES, tais como: Reforma da Previdência (o sistema, como está, já é insustentável agora. E com o passar do tempo, será cada vez mais – cortar distorções e privilégios nos regimes previdenciários – aumentar a idade mínima para aposentadoria, etc – essas medidas irão beneficiar não só futuros governos – mas o futuro do Brasil como um todo); Reforma Tributária (acabar com a guerra fiscal entre os Estados, por exemplo, reduzir impostos e ampliar a base de arrecadação); Reforma Política (reduzir drasticamente o número de partidos, por exemplo; acabar de vez com o financiamento privado de campanhas (o que tem gerado todas ou quase todas as corrupções descobertas ou não), unificar os mandatos de Presidente, Governador, Prefeitos, Deputados e Senadores); Reduzir as desigualdades salariais entre iniciativa privada e setor público (O Judiciário e os Legislativos, por exemplo, custam muito caro); entre outras questões fundamentais como controle da inflação, dos gastos públicos e redução das taxas de juros.

- Punir exemplarmente os corruptos e corruptores (de todos os partidos e em todos os setores) – E buscar mecanismos de coibir essas práticas nefastas que vinham acontecendo nas estais e nos órgãos públicos de todas as esferas.

Superar o ódio entre classes – URGENTE

Sem a superação desse ÓDIO IRRACIONAL entre brasileiros e brasileiras – Essa dicotomização de classes – "ELES E NÓS – NÓS E ELES" – Sem ESSES CONSENSOS MÍNIMOS – SEJA QUAL FOR O PRESIDENTE OU PARTIDO QUE ESTIVER NO PODER (a Dilma, o Michel Temer ou o Aécio) – NÃO IREMOS A LUGAR ALGUM – OU MELHOR: IREMOS SIM. PARA O FUNDO DO POÇO.

PS: Essa é uma opinião exclusivamente pessoal deste profissional (Loreno Siega). Não reflete o pensamento da empresa - Revista Visão.